sábado, 6 de fevereiro de 2021

 Grandes jornais têm caminho de crescimento no digital

Presidente da Associação Nacional de Jornais, Marcelo Rech diz que há potencial para que o progressivo aumento de assinaturas digitais continue

Mesmo com os desafios de trabalho, deslocamento e de negócios trazidos na esteira da pandemia, somados à árdua tarefa de conquistar e manter leitores em um processo contínuo de mudança de hábitos de consumo de meios, alguns dos maiores jornais do País conseguiram ampliar sua média de circulação em 2020 em comparação com o ano anterior.

A Folha de S.Paulo, que lidera o ranking de circulação total (cálculo que engloba as assinaturas impressas e digitais), tinha, em 2019, uma média de circulação de 328.438 exemplares, de acordo com o Instituto Verificador de Comunicação (IVC). Já considerando a média dos 12 meses de 2020, o número subiu para 337.854 exemplares. Segundo colocado no ranking, O Globo também teve um crescimento no período: em 2019, o veículo tinha circulação média de 326.841 exemplares. No ano passado, a média foi de 332.175 exemplares. No caso dos dois veículos, a alta na circulação é atribuída ao crescimento das edições digitais. Veja, abaixo, a tabela do desempenho da circulação dos maiores jornais brasileiros em 2020:



Na visão de Marcelo Rech, presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ), estamos assistindo a um círculo virtuoso. Veja, abaixo, a entrevista:

 Marcelo Rech é presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ) (Crédito: Divulgação)

 M&M: Dados do IVC mostram o crescimento das assinaturas digitais de alguns dos maiores jornais do País, como Folha, O Globo, Estadão e Valor Econômico. Essa é uma tendência que já vinha se mostrando há algum tempo. Em sua opinião, esses grandes veículos ainda têm potencial para ampliar a audiência digital?


Marcelo Rech: Sem dúvida, e não apenas nos veículos maiores. Estamos assistindo um progressivo aumento de assinaturas digitais em jornais, de uma forma geral, conforme a estratégia de cada veículo. Em alguns momentos, essa estratégia pode ser acelerada por meio de ofertas, produto e marketing, em outros gerida de forma a extrair o máximo da combinação papel/digital. Depende muito das condições locais, e dos planos estratégicos de cada veículo. Mas a tendência, naturalmente, é de ampliação. Observo que agora em 2021 se completam 10 anos do paywall poroso do The New York Times, que, embora não tenha sido o primeiro, mostrou um caminho sustentado de crescimento. Nesta década, os jornais aprenderam muito com suas experiências e de outros. Agora, esse aprendizado começa a gerar seus frutos – e o principal deles é a manutenção da relevância dos jornais pela sua audiência combinada.

Com a crescente noção de que segurança de marca é chave para a reputação e sobrevivência de empresas, deverá haver maior atenção dos anunciantes com os veículos e profissionais que estão no ramo da busca da verdade e da pluralidade

M&M: A pandemia impulsionou o consumo por conteúdo jornalístico, de maneira geral, no ano passado. Em sua opinião, o período também colaborou para o aumento do interesse pelas assinaturas de jornais?

Rech: Esse foi um efeito colateral não esperado, como a própria pandemia, mas compreensível pelas circunstâncias. Informação de qualidade e exclusiva, o que inclui pluralidade de opiniões, é um bem escasso. Em uma crise de dimensões globais que afeta a vida de todos e cuja história é escrita no dia a dia, o papel do jornalismo e dos jornais é decisivo. Eles se tornam uma rota de navegação nestes mares conturbados pela desinformação e pela polarização política. Informação e credibilidade valem, literalmente, vidas. Não há bem maior do que este, e de uma forma geral o jornalismo está correspondendo à altura do desafio.

 M&M: A circulação impressa, de forma geral, segue em ritmo de queda, em todos os grandes veículos do mercado. Em sua opinião, esse movimento é irreversível? Há como fazer parte dessa base ainda existente de assinantes do impresso migrarem para o digital?

Rech: As versões impressas seguirão existindo enquanto houver leitores dispostos a pagar pela conveniência e sensações proporcionadas pelas assinaturas e exemplares em papel. Embora cada jornal defina sua própria estratégia, de acordo com o ecossistema social, cultural e econômico a que se dirige, a tendência é o uso conjugado de diferentes plataformas e linguagens para se alcançar e engajar o maior número de leitores. A complementaridade é a palavra de ordem que veio para ficar, e se define pela combinação de conteúdos e diferentes formas de distribuição sob uma mesma marca. Até porque lidam com a disrupção desde os primórdios da revolução digital, jornais estão na vanguarda do domínio e aplicação dos conceitos de conteúdos e linguagens complementares. Estimular a migração digital pode ser positivo para um jornal, mas não para outro. A fórmula tem de ser definida de acordo com cada timing e características de mercado.

 M&M: Quais são as medidas e ações que os veículos podem criar para atrair mais audiência para seus produtos digitais – e, por consequência, mais anunciantes para o meio digital, também.

Rech: Os jornais não estão na batalha da audiência pela audiência. Conteúdos apelativos, bizarros, conspiratórios e falsos, por exemplo, sugam muita audiência digital, mas qual marca gosta de se ver vinculada a eles? Por isso, os jornais se focam em audiências de qualidade, diferenciadas, que se assentam na relação de confiança criada pelo título, muitas vezes ao longo de décadas, e que se estendem aos anunciantes e marcas presentes no veículo. Com a crescente noção de que segurança de marca é chave para a reputação e sobrevivência de empresas, deverá haver maior atenção dos anunciantes com os veículos e profissionais que estão no ramo da busca da verdade e da pluralidade, como é o caso da imprensa profissional e particularmente dos jornais. A tendência do consumidor é se exigir mais legitimidade e confiança nas relações comerciais. Muitos anúncios mascarados, portanto, como se vê em redes sociais, tendem a perder espaço para publicidade aberta e franca nas quais não se não tenta iludir o público com um conteúdo que não expressa algo espontâneo e legitimo. Vejo o mundo pós-pandemia como um mundo que valoriza a credibilidade, a verdade, a legitimidade e o equilíbrio.

 Os ventos, de certa forma, já começam a mudar em muitos países, com o aperto regulatório nas redes e plataformas que se valem a polarização, das bolhas, da desinformação e da extração de dados pessoais sem fim para faturar rios de dinheiro.

 Fonte: Meio&Mensagem

 

 

New York Times alcança 7,5 milhões de assinaturas

Veículo teve seu melhor ano da história em termos de conquista de assinaturas digitais; receita publicitária caiu

Apesar da pandemia e da agitação social trazida pelos protestos pelas questões raciais e pela eleição presidencial nos Estados Unidos, o The New York Times teve em 2020 o seu melhor ano em termos de conquista de novos leitores.


De acordo com relatório divulgado pela The New York Times Company, o jornal registrou um acréscimo de 2,3 milhões de novas assinaturas digitais no ano passado. Com isso, o veículo norte-americano ultrapassa a marca de 7,5 milhões de assinantes, considerando as plataformas digitais e o impresso.

Os maiores ganhos de novos leitores aconteceram em dois períodos do ano, segundo o jornal: em abril, quando os estadunidenses vivenciaram a rotina de quarentena e home office, o NYT agregou 669 mil assinantes digitais. Depois, no quarto trimestre, no período das eleições presidenciais, o jornal registrou 627 mil novas assinaturas digitais.

Grandes jornais têm caminho de crescimento no digital

 O NYT também alcançou dois importantes marcos em 2020. Pela primeira vez a receita digital ultrapassou a impressa e o mesmo aconteceu com a receita das assinaturas digitais, que já representam a maior parte do negócio. De acordo com a CEO do New York Times, Meredith Kopit Levien, esses dois feitos marcam o fim da primeira década da transformação do New York Times para um veículo digital first.

No quarto trimestre, a receita com assinaturas digitais alcançou o montante de US$ 167 milhões, valor 37% maior do que o registrado no último trimestre de 2019. Considerando todo o ano, a receita com assinaturas digitais foi de US$ 598,3, milhões um aumento de 30% na comparação com 2019. A receita de total de assinaturas, considerando todos os produtos, inclusive o impresso, foi de US$ 1,195 bilhão, representado um aumento de 10% em comparação com o ano anterior.

 Publicidade

O bom desempenho das assinaturas, no entanto, não se repetiu na área de publicidade. A retração dos investimentos dos anunciantes provocada pela pandemia afetou o desempenho do veículo, causando uma queda de 26% na receita publicitária no ano, que ficou em US$ 392,4 milhões. A receita de publicidade no impresso teve um recuo de 39%.

 Fonte: Meio&Mensagem

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

 

As tendências para o mercado de mídia e comunicação em 2021

Consultoria Kantar revela tendências que devem se firmar no ano que vem – muitas delas como resultado das mudanças trazidas pela pandemia de Covid-19

O fim do ano chegou e com ele se solidificam as apostas para os cenários que vamos encontrar em um mundo profundamente transformado por pandemia, confinamento, crise econômica e sanitária – bem como por novidades tecnológicas e comportamentais. Em todas as áreas será assim, mas quando se trada do mercado de mídia e comunicação, as transformações parecem ter sido ainda mais rápidas e profundas. Pensando nesse complexo quadro, a Kantar, empresa de pesquisa de mercado, insights e consultoria, liberou seu relatório de apostas para 2021, mapeando as tendências que devem impactar essa indústria.

Alguns desses insights já vêm acontecendo nos últimos dois anos, por exemplo o crescimento do marketing de influência, que agora pede cada vez mais propósito e posicionamento de quem pretende ocupar esse posto. Mas há novidades, como o conceito do assinante-bumerangue, aquele que vai e volta entre as diversas plataformas de subscrição de conteúdo que consome.

Para saber mais sobre o que vem por aí na opinião dos experts da consultoria, confira abaixo um top 5 entre as apostas elencadas.

Audiências com comportamentos ainda mais complexos

Donos de veículos de mídia, de plataformas de conteúdo e creators não devem ter sossego em 2021. A comunicação é um dos mercados que mais muda com a velocidade com que as mudanças sociais e de comportamento tem ocorrido atualmente e isso não deve se alterar. Ainda que a pandemia de Covid-19 arrefeça no ano que vem, a maneira como as audiências se comportam seguirá sendo complexa de entender.

“À medida que a pandemia progredia em cada país, observamos que o consumo de mídia crescia de forma importante. Só em abril, vimos a navegação na internet aumentar em 64%, o consumo de vídeo online em 54% e o engajamento em mídia social em 56%. Enquanto isso, os consumidores estavam cada vez mais preocupados com o futuro e com a economia: 77% sentiam ou esperavam sentir um impacto em sua renda”, diz o relatório.

A resposta para lidar com esses humores da audiência, impactada por uma realidade que não é mais tão solida, é ter agilidade para mudar sua forma de fazer comunicação e ter ainda mais interesse em mapear o que as pessoas querem ver. Em outras palavras, ler os dados e os sinais emitidos por seu público.

O assinante-bumerangue

Não é nada pessoal com a sua marca ou serviço, mas saiba que a tendência do consumidor ir e voltar entre diversas plataformas irá se consolidar em 2021. Lealdade será uma conquista difícil, principalmente no mercado de streamings, que vive uma “guerra” pelo assinante, animada no caso dos filmes e séries pelo lançamento da Disney+.

Segundo a Kantar o que vem por aí no ano que vem são parcerias para driblar esse feito bumerangue – como a da Disney com o Bradesco e a Globo Play no Brasil, por exemplo, e uma importância ainda maior em cuidar do relacionamento com o cliente: “A relação das plataformas com seus assinantes é peça fundamental e deve ser cuidadosamente planejada para reduzir o número de cancelamentos; nada reduz mais a fidelidade do que os consumidores não terem suas necessidades atendidas e não haver uma opção de saída (cancelamento) fácil”, reforça o documento.

A relação entre comércio eletrônico e mídias sociais

De acordo com dados mapeados pela Kantar, só nos Estados Unidos, por exemplo, 63% dos consumidores começam suas buscas de compras primeiro pelo Google – e não por sites como Amazon ou Walmart. Isso significa que, principalmente para os “millennials”, as mídias sociais seguem sendo uma grande e poderosa vitrine.

Em 2020 tivemos marcas grandes retirando seus investimentos de plataformas como o Facebook para pressionar uma melhor maneira de controlar anúncios de conteúdos patrocinados que podem ser danosos à democracia e aos Direitos Humanos, indo no rastro dos atritos que as eleições nos Estados Unidos causaram. Com mais gente conectada em tempo integral, por causa da pandemia especialmente, surgiram os e-commerces sociais, notadamente criados pela Amazon e pelo Alibaba, que “lançaram suas transmissões ao vivo, através do ‘Taobao Live’ e do ‘Amazon Live’, respectivamente, dentro de seus ecossistemas”.

Para o ano que vem, essa comunicação multicanal deve se tornar mainstream: “Essas novas dinâmicas de mercado permitirão que pequenas marcas insurgentes cresçam e ganhem participação de mercado. Por outro lado, players mais estabelecidos precisam ser mais ágeis e utilizar plataformas de comunidade, como o e-commerce social do Facebook Shop e WeChat, em conjunto com influenciadores na sua estratégia de comunicação e promoção.

TV tradicional X streaming

Se tem algo que mudou radicalmente foi a forma de consumir conteúdo durante a pandemia, com as pessoas passando horas e horas nas plataformas de streaming, a ponto de governos mundo afora terem que pedir para empresas como a Netflix diminuírem a qualidade de exibição de seus conteúdos para não comprometerem todo o sistema de internet.

Para enfrentar essa concorrência, a TV tradicional aposta no ao vivo, que ainda é algo de muito apelo e insubstituível. Para a Kantar, vem por aí um necessário estudo da atenção da audiência para entender como ela está se comportando. “Ainda que os patamares de audiência tenham retornado gradualmente aos níveis pré-isolamento, a co-visualização ainda é importante, e prevemos que as sobreposições do público entre as plataformas de streaming crescerão. A medição em todas as telas e plataformas deve ser levada a sério para entender as migrações das audiências”, diz o documento.

Leia também: Streaming ganha espaço e se torna rotina para os brasileiros 

Ação, influência e propósito

Há um tempo as consultorias de mídia e comunicação vêm falando sobre propósito para marcas e criadores de conteúdo. Em 2020 houve um verdadeiro divisor de água nesse sentido e muita gente que não se manifestou (incluindo marcas) foi cobrado.

“Buscando se diferenciar em um ambiente de mídia saturado, as marcas compartilham cada vez mais suas opiniões e se envolvem na área de políticas públicas. As oportunidades de sucesso ou fracasso são reais e, embora a paixão por uma causa possa ser forte, se as marcas apenas falarem e não fizerem nada, a credibilidade delas será questionada”, reforça o relatório da Kantar.

Entre os dados liberados no material, está, por exemplo, o fato de que para 49% dos consumidores “agir com responsabilidade é o que mais influencia a reputação de uma marca”. Com as redes sociais dando voz aos indivíduos, cobranças e posicionamentos devem ser cada vez mais comuns e todo mundo precisará estar preparado para isso, principalmente de forma a evitar ruídos de comunicação antes que eles aconteçam. Caso contrário, mais e mais marcas ou pessoas podem ser vistos como oportunistas, de acordo com o posicionamento tomado.

 

Mídia, próxima parada: reinvenção completa

O negócio de apurar fatos e produzir notícias sustentado pela publicidade comercial foi desconstruído, mas o conteúdo jamais teve tanto valor. De que forma fechar essa conta?

Web Summit 2020 foi pautado por diversas discussões mais intensas: nossa convivência com a Inteligência Artificial, os robôs, nossa interação com o planeta e os ecossistemas ambientais, a evolução das cidades como centros de convivência, criação intelectual e serviços capazes de permitir uma convivência mais saudável entre as pessoas o espaço urbano e o futuro das mídias.

Tive o privilégio de participar de diversas dessas discussões ao longo dos 3 dias do evento, com quase duas dezenas de executivos e profissionais de mídia da Europa, América do Norte, África e Austrália. Um resumo dessas discussões é o objeto desse artigo.

Nesse último tópico, uma série de mesas-redondas foram realizadas ao longo dos 3 dias do evento, procurando compreender a dimensão da disrupção que desconstruiu por completo toda a lógica da produção de notícias, apuração dos fatos, a compreensão dos fatos, o relacionamento com as audiências, novos modelos de monetização e organização do que se convencionou a chamar de mídia comercial.

O século XX, desde o seu início, permitiu uma ligação quase umbilical entre democracias e liberdade de imprensa, tendo como avalista a publicidade comercial. O sofisma era básico: “Não existe democracia sem imprensa livre. Não existe imprensa livre sem publicidade”. Era justamente a publicidade comercial que garantia a repórteres, jornais, revistas, canais de TV e rádio, uma grande independência para reportar os fatos, mesmo aqueles que confrontavam o poder e as instituições. Tanto é verdade, que um dos requisitos essenciais para que ditaduras ou governos autoritários se estabelecessem, era justamente limitar a liberdade de imprensa.

Esse modelo funcionou razoavelmente bem até os primeiros anos do século XXI. Isso porque as mídias controlavam fundamentalmente os mecanismos de distribuição da informação produzida. Revistas, jornais, canais de rádio e TV funcionavam como “silos” e buscavam formas de endereçar seus produtos por meio de canais físicos estabelecidos: bancas de jornais, livrarias, assinaturas com entrega domicílio para as mídias impressas e repetidoras com alguma produção local coordenada com a produção de um núcleo central para as emissoras de rádio e TV.

A busca por audiência pautava o jogo e o negócio. E quanto maior o alcance e a penetração das mídias, maior era o valor do espaço publicitário – aberto no meio da informação oferecida. Por incrível que pareça, a produção de informação parecia abundante, mas não era, de fato. Ao contrário, era limitada por barreiras físicas definidas: o número de páginas nas mídias impressas e o tempo disponível, no rádio e na TV. Logo, a publicidade comercial era praticamente compulsória. Era necessário ver anúncios para continuar acessando o conteúdo.

Leia também: As tendências para o mercado de mídia e comunicação em 2021 

Desconstrução e disrupção

Aos poucos, como convém às disrupções reais, esse modelo foi sendo desconstruído, obedecendo aos 6 “Ds” clássicos da exponencialização. Primeiramente, o conteúdo foi digitalizado. Jornais, revistas, rádios e TV, apressaram-se para colocar seu conteúdo na internet, vendo aí mais uma forma de ganhar “audiência”. Depois, essa oferta passou “despercebida”, na medida em que, aparentemente, essa oferta digital trazia pouco valor.

E então veio a disrupção. A abundância de conteúdo jogado e disponível da internet precisava ser endereçado às pessoas que buscavam assuntos de sua preferência. Os buscadores, Google muito à frente e as redes sociais, receberam de bom grado uma corrente de conteúdo infinita gerada pelos veículos de mídia e então criaram o formato de “links patrocinados” – conteúdos que quisessem atingir mais pessoas e que fossem de encontro a públicos precisos precisariam ser pagos. Uma disrupção tão potente que logo tirou dos veículos o controle sobre a destruição. O “espaço” disponível aumentou dramaticamente e o valor dissipado da perda da distribuição foi capturado e multiplicado pelas plataformas de distribuição inteligente.

Vieram então os 3 “Ds” finais: desmaterialização (o conteúdo tornou-se inteiramente digital), desmonetização (a publicidade comercial saiu dos espaços publicitários e foi para anúncios incrivelmente direcionados e para gestão de comunidades) e democratização (mais pessoas e organizações passaram a produzir mais conteúdo, “brigando” pelo mesmo interesse e pela mesma audiência que as mídias tradicionais).

E agora?

O fato é que abandonar um modelo de negócio tão consolidado quanto a venda de espaço publicitário é extremamente custosa e difícil. O fato é que as mídias passaram a olhar para dentro de si mesmas para entender quem exatamente consumia o conteúdo e quais os formatos de monetização que esse domínio da preferência da audiência permitiam. Eventos foram uma alternativa, patrocínios associados a pautas de cobertura dos eventos foram uma ampliação dessa ideia. Assinaturas direcionadas por assuntos, por níveis de permissão de acesso e imersão no conteúdo foram outra ideia. Crowdsourcing foi outra opção voltada para atender mídias de “interesse público”, formas de comercialização dos conteúdos foram outras escolhas.

Mas nenhuma delas ou a combinação delas pareceu tão promissora quanto a ideia de “membership” ou uma evolução da ideia de assinatura, baseada não apenas na imersão no conteúdo oferecido, mas sim na ideia de associação a uma comunidade fechada com direito a serviços diversos oferecidos no interior das plataformas.

Sim, o futuro das mídias passa pela adoção e construção massiva de sistemas e a renúncia à publicidade convencional, como uma escolha para manter vitalidade e vigor factual. Saem as mídias “físicas” e entram as plataformas “phygital”, que unem experiências de conteúdo muito embasadas na entrega digital, temperadas por experiências físicas de alto valor. Ao “plugar” serviços nas plataformas e oferecer mais ideias de consumo associadas aos conteúdos, há toda uma série de oportunidades para as mídias novamente ganharem espaço, se diferenciando da massa de ruídos provocada pela abundância de informação, a partir da combinação de curadoria, relevância, confiabilidade e rentabilidade.

O futuro está nas plataformas

Em jogo, está não apenas a sobrevivência da “mídia”, mas sobretudo de um sistema de informação que sustenta as democracias liberais. O ecossistema ainda está muito machucado, com diversas empresas tradicionais à deriva diante da necessária transformação digital e a necessidade de ajustar modelos de negócios para a construção de comunidades, redes e coalizões que possam sustentar o negócio e viabilizar o caminho do “membership”. Por isso, convivemos com perda de credibilidade, alterações de estilo, lacunas na produção, ansiedade na cobertura e repercussão de diversas agendas sociais e econômicas, nublando a necessária objetividade da informação com opiniões muitas vezes desconectadas das aspirações e expectativas da audiência.

Ainda assim, os efeitos da exponencialização da informação ainda estão por todo o horizonte das mídias, no Brasil e no mundo, conforme pudemos concluir a partir das participações nas diversas mesas-redondas do Web Summit 2020. Mas a pandemia de Covid-19 mostrou o quão necessário e urgente é a reinvenção das empresas que buscam trabalhar a informação para audiências diversas. Buscar a conexão mais profunda, mais relacional e mais sintonizada com expectativas e oferta de valor com as audiências, retomando o controle sobre a distribuição dentro de plataformas fluidas e de formato phygital parece o caminho menos acidentado para uma nova mídia.

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

 

Facebook ameaça impedir compartilhamentos para não pagar por conteúdo

Projeto de lei na Austrália pressiona para que Facebook e Google paguem pela exibição de conteúdos jornalísticos, mas rede social se recusa

O Facebook se manifestou sobre o projeto de lei australiano que prevê que empresa desembolse dinheiro para veículos de comunicação. A gigante digital afirmou que se recusa a pagar e que deve impedir que usuários e veículos de comunicação da Austrália compartilhem notícias caso o projeto seja aprovado no Parlamento local. Segundo o Facebook, sua decisão é “a única forma de se proteger contra uma consequência que desafia a lógica”.

O projeto de lei “interpreta mal a dinâmica da internet e causará danos aos órgãos de imprensa que o governo tenta proteger”, disse o CEO do Facebook na região, Will Easton, em nota.

“O mais desconcertante é que obrigaria o Facebook a pagar a grupos de imprensa pelo conteúdo que postam voluntariamente em nossas plataformas e a um preço que ignora o valor financeiro que trazemos para eles”, continuou.

Eastou afirmou também que o Facebook gerou 2,3 bilhões de acessos em sites australianos nos primeiros 5 meses de 2020 – cerca de US$ 126,5 milhões (R$ 677 milhões). O CEO disse ainda que a empresa se prepara para o lançamento na Austrália do Facebook News, uma seção de notícias que já funciona nos Estados Unidos desde o ano passado.

Entenda o projeto de lei australiano

Em julho deste ano, o governo da Austrália divulgou o rascunho de um “código de conduta vinculativo”, que, de acordo com o documento, regularia as relações entre a mídia, em grandes dificuldades financeiras, e os grupos que dominam a Internet, após 18 meses de negociações que não conseguiram aproximar as duas partes.

O documento também prevê a transparência dos algoritmos usados para elaborar a ordem de aparição dos assuntos, assim como multas que chegariam a milhões de dólares em caso de violação.

O secretário do Tesouro australiano afirmou que “A Austrália faz leis que promovem nosso interesse nacional. Não respondemos a coerção ou ameaças de onde quer que venham”, e que espera que o Parlamento aprove a legislação neste ano.

Já o ministro das Comunicações, Paul Fletcher, disse que a tramitação do projeto continuará. “Está longe de ser algo sem precedentes para grandes empresas de tecnologia fazerem ameaças”, disse. “Continuaremos com nosso processo completo e cuidadoso e dando a todas as partes interessadas a chance para expor suas opiniões”.

Posicionamento do Google

Em carta aberta, o Google afirmou que a proposta de lei Australiana “é uma ameaça à privacidade individual e um fardo que degradaria a qualidade dos serviços de vídeo do YouTube”.  Apesar de mostrar descontentamento, a empresa, ao contrário do Facebook, não fez nenhuma ameaça.

 

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Daily News, dos EUA, é agora um jornal sem sala de redação

O grupo norte-americano Tribune Publishing, proprietário do Daily News e do Capital Gazette de Nova York, entre outros títulos, anunciou que fechará permanentemente as redações de ambos os jornais. Os funcionários trabalharão em sistema remoto e em home office.
“Determinamos que não precisamos reabrir a redação para manter nossas operações atuais”, escreveu Toni Martinez, executiva de recursos humanos da Tribune Publishing, em um e-mail para a equipe. “Com este anúncio, também começamos a olhar para oportunidades estratégicas e alternativas para ocupação futura.”
“Sem um caminho claro em termos de retorno ao trabalho e à medida que a empresa avalia suas necessidades imobiliárias à luz das condições econômicas e de saúde trazidas pela pandemia, tomamos a difícil decisão de fechar definitivamente o escritório”, disse Max Reinsdorf, porta-voz da Tribune Publishing, ao The New York Times. Ele, porém, observou que a empresa pode reconsiderar a decisão no futuro.
No início deste mês, o grupo Tribune Publishing divulgou seus resultados do segundo trimestre de 2020, mostrando um aumento de 39% nos assinantes apenas digitais, mas uma redução de 48% nas receitas de publicidade.
Leia mais em:

quarta-feira, 12 de agosto de 2020


O impresso tem futuro
É preciso entender qual o papel da mídia impressa em um mundo digitalizado in extremis, o que o leitor pretende encontrar naquelas páginas

Quanto mais a crise aperta, maior é a quantidade de empresas de comunicação que, ao verificarem o quadro de receitas e despesas, se desesperam. Os números não fecham, principalmente pela queda-livre das duas principais fontes do velho modelo de negócio: publicidade e assinaturas de impressos. O mal que se abate hoje sobre as empresas foi amplamente anunciado há, pelo menos, cinco anos. Mas dez entre dez jornais e revistas que viviam bons momentos no início da década optaram por não acreditar nas previsões. E hoje colhem as consequências.

Apesar do quebra-quebra generalizado, a boa notícia é que o impresso não está morto e não vai morrer. Só é preciso entender qual o papel da mídia impressa em um mundo digitalizado in extremis, o que o leitor pretende encontrar naquelas páginas. Detalhe: jornais e revistas são meios que cobram por exemplares. Ou seja, há uma decisão direta do leitor entre pagar e ler, ou prescindir do produto. É o caso mais claro de análise imediata de valor. Se valer a pena, o impresso vai ter sucesso. OK, mas o que vale a pena ler em um jornal ou uma revista?

Qualquer conteúdo refinado, aprofundado, explicativo, antecipado, bem apresentado, posicionado. Só o que não vale é publicar notícias velhas. A fala do prefeito não tem valor, mas a consequência de seu anúncio sim. O resultado da partida não vale nada, mas o perfil do goleador e a análise do esquema de jogo merecem leitura. A opinião dos amigos não acrescentam valor, mas a coluna do escritor mais reconhecido da cidade é um tremendo diferencial.

Há pouco mais de um mês o editor de opinião do The New York Times foi demitido. James Bennet publicou um artigo do Senador Tom Cotton, jovem conservador do estado de Arkansas (EUA), sugerindo ação militar contra as manifestações anti-racistas do #blacklivesmatter. Houve uma reação imediata de leitores e alguns milhares cancelaram as assinaturas, em protesto. O Times reagiu e se desculpou, mas já era tarde. Importante é que não teve medo de tomar posição. Um jornal pode – e deve – defender valores. Isso é o que o conecta com os leitores, não mais as notícias – como antigamente (sobre isso há um interessante artigo da professora Ana Brambilla no Orbis Media).

O problema central dessa reinvenção do jornalismo como negócio é fazer com que os líderes entendam a nova lógica. O impresso é apenas um dos produtos da cesta de opções que a empresa de comunicação deve oferecer à audiência. Pode ser hoje o principal – e será durante a transição. Sua receita é bem-vinda e não deve ser comprometida, mas já não é suficiente.

Não existe substituição, mas complementaridade. A estratégia informativa precisa entender para que serve cada um dos meios de comunicação – e fazer com que todos eles sejam necessários. Se a notícia é mais ágil nos meios digitais e eletrônicos, o impresso precisa investir em tudo o que não signifique rapidez. Simples assim.

O impresso teve um passado de muito sucesso, tem um presente de incertezas e terá um futuro assegurado se souber entender os novos tempos. Jornais precisam circular sete dias por semana? Depende do mercado. Na grande maioria dos casos não precisa. Revistas devem ter conteúdos para todos? Salvo exceções, revistas são produtos de nicho. Quanto mais profundo mergulhar no nicho, menos interesse deverá dar a quem ficar de fora. Diminui-se o tamanho do alvo e cobra-se mais pela especialização.

Nenhuma dúvida que 2020 será o ano das grandes mudanças – aceleradas pelo coronavírus. Uma grande quantidade de empresas já quebraram ou quebrarão até dezembro por falta de visão do negócio. Os que conseguirem entender os novos ventos terão um futuro radiante. Para esses, o impresso seguirá sendo um bom negócio.

Fonte: Meio&Mensagem (Eduardo Tessler – Jornalista e Consultor)