quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

 

Mídia, próxima parada: reinvenção completa

O negócio de apurar fatos e produzir notícias sustentado pela publicidade comercial foi desconstruído, mas o conteúdo jamais teve tanto valor. De que forma fechar essa conta?

Web Summit 2020 foi pautado por diversas discussões mais intensas: nossa convivência com a Inteligência Artificial, os robôs, nossa interação com o planeta e os ecossistemas ambientais, a evolução das cidades como centros de convivência, criação intelectual e serviços capazes de permitir uma convivência mais saudável entre as pessoas o espaço urbano e o futuro das mídias.

Tive o privilégio de participar de diversas dessas discussões ao longo dos 3 dias do evento, com quase duas dezenas de executivos e profissionais de mídia da Europa, América do Norte, África e Austrália. Um resumo dessas discussões é o objeto desse artigo.

Nesse último tópico, uma série de mesas-redondas foram realizadas ao longo dos 3 dias do evento, procurando compreender a dimensão da disrupção que desconstruiu por completo toda a lógica da produção de notícias, apuração dos fatos, a compreensão dos fatos, o relacionamento com as audiências, novos modelos de monetização e organização do que se convencionou a chamar de mídia comercial.

O século XX, desde o seu início, permitiu uma ligação quase umbilical entre democracias e liberdade de imprensa, tendo como avalista a publicidade comercial. O sofisma era básico: “Não existe democracia sem imprensa livre. Não existe imprensa livre sem publicidade”. Era justamente a publicidade comercial que garantia a repórteres, jornais, revistas, canais de TV e rádio, uma grande independência para reportar os fatos, mesmo aqueles que confrontavam o poder e as instituições. Tanto é verdade, que um dos requisitos essenciais para que ditaduras ou governos autoritários se estabelecessem, era justamente limitar a liberdade de imprensa.

Esse modelo funcionou razoavelmente bem até os primeiros anos do século XXI. Isso porque as mídias controlavam fundamentalmente os mecanismos de distribuição da informação produzida. Revistas, jornais, canais de rádio e TV funcionavam como “silos” e buscavam formas de endereçar seus produtos por meio de canais físicos estabelecidos: bancas de jornais, livrarias, assinaturas com entrega domicílio para as mídias impressas e repetidoras com alguma produção local coordenada com a produção de um núcleo central para as emissoras de rádio e TV.

A busca por audiência pautava o jogo e o negócio. E quanto maior o alcance e a penetração das mídias, maior era o valor do espaço publicitário – aberto no meio da informação oferecida. Por incrível que pareça, a produção de informação parecia abundante, mas não era, de fato. Ao contrário, era limitada por barreiras físicas definidas: o número de páginas nas mídias impressas e o tempo disponível, no rádio e na TV. Logo, a publicidade comercial era praticamente compulsória. Era necessário ver anúncios para continuar acessando o conteúdo.

Leia também: As tendências para o mercado de mídia e comunicação em 2021 

Desconstrução e disrupção

Aos poucos, como convém às disrupções reais, esse modelo foi sendo desconstruído, obedecendo aos 6 “Ds” clássicos da exponencialização. Primeiramente, o conteúdo foi digitalizado. Jornais, revistas, rádios e TV, apressaram-se para colocar seu conteúdo na internet, vendo aí mais uma forma de ganhar “audiência”. Depois, essa oferta passou “despercebida”, na medida em que, aparentemente, essa oferta digital trazia pouco valor.

E então veio a disrupção. A abundância de conteúdo jogado e disponível da internet precisava ser endereçado às pessoas que buscavam assuntos de sua preferência. Os buscadores, Google muito à frente e as redes sociais, receberam de bom grado uma corrente de conteúdo infinita gerada pelos veículos de mídia e então criaram o formato de “links patrocinados” – conteúdos que quisessem atingir mais pessoas e que fossem de encontro a públicos precisos precisariam ser pagos. Uma disrupção tão potente que logo tirou dos veículos o controle sobre a destruição. O “espaço” disponível aumentou dramaticamente e o valor dissipado da perda da distribuição foi capturado e multiplicado pelas plataformas de distribuição inteligente.

Vieram então os 3 “Ds” finais: desmaterialização (o conteúdo tornou-se inteiramente digital), desmonetização (a publicidade comercial saiu dos espaços publicitários e foi para anúncios incrivelmente direcionados e para gestão de comunidades) e democratização (mais pessoas e organizações passaram a produzir mais conteúdo, “brigando” pelo mesmo interesse e pela mesma audiência que as mídias tradicionais).

E agora?

O fato é que abandonar um modelo de negócio tão consolidado quanto a venda de espaço publicitário é extremamente custosa e difícil. O fato é que as mídias passaram a olhar para dentro de si mesmas para entender quem exatamente consumia o conteúdo e quais os formatos de monetização que esse domínio da preferência da audiência permitiam. Eventos foram uma alternativa, patrocínios associados a pautas de cobertura dos eventos foram uma ampliação dessa ideia. Assinaturas direcionadas por assuntos, por níveis de permissão de acesso e imersão no conteúdo foram outra ideia. Crowdsourcing foi outra opção voltada para atender mídias de “interesse público”, formas de comercialização dos conteúdos foram outras escolhas.

Mas nenhuma delas ou a combinação delas pareceu tão promissora quanto a ideia de “membership” ou uma evolução da ideia de assinatura, baseada não apenas na imersão no conteúdo oferecido, mas sim na ideia de associação a uma comunidade fechada com direito a serviços diversos oferecidos no interior das plataformas.

Sim, o futuro das mídias passa pela adoção e construção massiva de sistemas e a renúncia à publicidade convencional, como uma escolha para manter vitalidade e vigor factual. Saem as mídias “físicas” e entram as plataformas “phygital”, que unem experiências de conteúdo muito embasadas na entrega digital, temperadas por experiências físicas de alto valor. Ao “plugar” serviços nas plataformas e oferecer mais ideias de consumo associadas aos conteúdos, há toda uma série de oportunidades para as mídias novamente ganharem espaço, se diferenciando da massa de ruídos provocada pela abundância de informação, a partir da combinação de curadoria, relevância, confiabilidade e rentabilidade.

O futuro está nas plataformas

Em jogo, está não apenas a sobrevivência da “mídia”, mas sobretudo de um sistema de informação que sustenta as democracias liberais. O ecossistema ainda está muito machucado, com diversas empresas tradicionais à deriva diante da necessária transformação digital e a necessidade de ajustar modelos de negócios para a construção de comunidades, redes e coalizões que possam sustentar o negócio e viabilizar o caminho do “membership”. Por isso, convivemos com perda de credibilidade, alterações de estilo, lacunas na produção, ansiedade na cobertura e repercussão de diversas agendas sociais e econômicas, nublando a necessária objetividade da informação com opiniões muitas vezes desconectadas das aspirações e expectativas da audiência.

Ainda assim, os efeitos da exponencialização da informação ainda estão por todo o horizonte das mídias, no Brasil e no mundo, conforme pudemos concluir a partir das participações nas diversas mesas-redondas do Web Summit 2020. Mas a pandemia de Covid-19 mostrou o quão necessário e urgente é a reinvenção das empresas que buscam trabalhar a informação para audiências diversas. Buscar a conexão mais profunda, mais relacional e mais sintonizada com expectativas e oferta de valor com as audiências, retomando o controle sobre a distribuição dentro de plataformas fluidas e de formato phygital parece o caminho menos acidentado para uma nova mídia.

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

 

Facebook ameaça impedir compartilhamentos para não pagar por conteúdo

Projeto de lei na Austrália pressiona para que Facebook e Google paguem pela exibição de conteúdos jornalísticos, mas rede social se recusa

O Facebook se manifestou sobre o projeto de lei australiano que prevê que empresa desembolse dinheiro para veículos de comunicação. A gigante digital afirmou que se recusa a pagar e que deve impedir que usuários e veículos de comunicação da Austrália compartilhem notícias caso o projeto seja aprovado no Parlamento local. Segundo o Facebook, sua decisão é “a única forma de se proteger contra uma consequência que desafia a lógica”.

O projeto de lei “interpreta mal a dinâmica da internet e causará danos aos órgãos de imprensa que o governo tenta proteger”, disse o CEO do Facebook na região, Will Easton, em nota.

“O mais desconcertante é que obrigaria o Facebook a pagar a grupos de imprensa pelo conteúdo que postam voluntariamente em nossas plataformas e a um preço que ignora o valor financeiro que trazemos para eles”, continuou.

Eastou afirmou também que o Facebook gerou 2,3 bilhões de acessos em sites australianos nos primeiros 5 meses de 2020 – cerca de US$ 126,5 milhões (R$ 677 milhões). O CEO disse ainda que a empresa se prepara para o lançamento na Austrália do Facebook News, uma seção de notícias que já funciona nos Estados Unidos desde o ano passado.

Entenda o projeto de lei australiano

Em julho deste ano, o governo da Austrália divulgou o rascunho de um “código de conduta vinculativo”, que, de acordo com o documento, regularia as relações entre a mídia, em grandes dificuldades financeiras, e os grupos que dominam a Internet, após 18 meses de negociações que não conseguiram aproximar as duas partes.

O documento também prevê a transparência dos algoritmos usados para elaborar a ordem de aparição dos assuntos, assim como multas que chegariam a milhões de dólares em caso de violação.

O secretário do Tesouro australiano afirmou que “A Austrália faz leis que promovem nosso interesse nacional. Não respondemos a coerção ou ameaças de onde quer que venham”, e que espera que o Parlamento aprove a legislação neste ano.

Já o ministro das Comunicações, Paul Fletcher, disse que a tramitação do projeto continuará. “Está longe de ser algo sem precedentes para grandes empresas de tecnologia fazerem ameaças”, disse. “Continuaremos com nosso processo completo e cuidadoso e dando a todas as partes interessadas a chance para expor suas opiniões”.

Posicionamento do Google

Em carta aberta, o Google afirmou que a proposta de lei Australiana “é uma ameaça à privacidade individual e um fardo que degradaria a qualidade dos serviços de vídeo do YouTube”.  Apesar de mostrar descontentamento, a empresa, ao contrário do Facebook, não fez nenhuma ameaça.

 

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Daily News, dos EUA, é agora um jornal sem sala de redação

O grupo norte-americano Tribune Publishing, proprietário do Daily News e do Capital Gazette de Nova York, entre outros títulos, anunciou que fechará permanentemente as redações de ambos os jornais. Os funcionários trabalharão em sistema remoto e em home office.
“Determinamos que não precisamos reabrir a redação para manter nossas operações atuais”, escreveu Toni Martinez, executiva de recursos humanos da Tribune Publishing, em um e-mail para a equipe. “Com este anúncio, também começamos a olhar para oportunidades estratégicas e alternativas para ocupação futura.”
“Sem um caminho claro em termos de retorno ao trabalho e à medida que a empresa avalia suas necessidades imobiliárias à luz das condições econômicas e de saúde trazidas pela pandemia, tomamos a difícil decisão de fechar definitivamente o escritório”, disse Max Reinsdorf, porta-voz da Tribune Publishing, ao The New York Times. Ele, porém, observou que a empresa pode reconsiderar a decisão no futuro.
No início deste mês, o grupo Tribune Publishing divulgou seus resultados do segundo trimestre de 2020, mostrando um aumento de 39% nos assinantes apenas digitais, mas uma redução de 48% nas receitas de publicidade.
Leia mais em:

quarta-feira, 12 de agosto de 2020


O impresso tem futuro
É preciso entender qual o papel da mídia impressa em um mundo digitalizado in extremis, o que o leitor pretende encontrar naquelas páginas

Quanto mais a crise aperta, maior é a quantidade de empresas de comunicação que, ao verificarem o quadro de receitas e despesas, se desesperam. Os números não fecham, principalmente pela queda-livre das duas principais fontes do velho modelo de negócio: publicidade e assinaturas de impressos. O mal que se abate hoje sobre as empresas foi amplamente anunciado há, pelo menos, cinco anos. Mas dez entre dez jornais e revistas que viviam bons momentos no início da década optaram por não acreditar nas previsões. E hoje colhem as consequências.

Apesar do quebra-quebra generalizado, a boa notícia é que o impresso não está morto e não vai morrer. Só é preciso entender qual o papel da mídia impressa em um mundo digitalizado in extremis, o que o leitor pretende encontrar naquelas páginas. Detalhe: jornais e revistas são meios que cobram por exemplares. Ou seja, há uma decisão direta do leitor entre pagar e ler, ou prescindir do produto. É o caso mais claro de análise imediata de valor. Se valer a pena, o impresso vai ter sucesso. OK, mas o que vale a pena ler em um jornal ou uma revista?

Qualquer conteúdo refinado, aprofundado, explicativo, antecipado, bem apresentado, posicionado. Só o que não vale é publicar notícias velhas. A fala do prefeito não tem valor, mas a consequência de seu anúncio sim. O resultado da partida não vale nada, mas o perfil do goleador e a análise do esquema de jogo merecem leitura. A opinião dos amigos não acrescentam valor, mas a coluna do escritor mais reconhecido da cidade é um tremendo diferencial.

Há pouco mais de um mês o editor de opinião do The New York Times foi demitido. James Bennet publicou um artigo do Senador Tom Cotton, jovem conservador do estado de Arkansas (EUA), sugerindo ação militar contra as manifestações anti-racistas do #blacklivesmatter. Houve uma reação imediata de leitores e alguns milhares cancelaram as assinaturas, em protesto. O Times reagiu e se desculpou, mas já era tarde. Importante é que não teve medo de tomar posição. Um jornal pode – e deve – defender valores. Isso é o que o conecta com os leitores, não mais as notícias – como antigamente (sobre isso há um interessante artigo da professora Ana Brambilla no Orbis Media).

O problema central dessa reinvenção do jornalismo como negócio é fazer com que os líderes entendam a nova lógica. O impresso é apenas um dos produtos da cesta de opções que a empresa de comunicação deve oferecer à audiência. Pode ser hoje o principal – e será durante a transição. Sua receita é bem-vinda e não deve ser comprometida, mas já não é suficiente.

Não existe substituição, mas complementaridade. A estratégia informativa precisa entender para que serve cada um dos meios de comunicação – e fazer com que todos eles sejam necessários. Se a notícia é mais ágil nos meios digitais e eletrônicos, o impresso precisa investir em tudo o que não signifique rapidez. Simples assim.

O impresso teve um passado de muito sucesso, tem um presente de incertezas e terá um futuro assegurado se souber entender os novos tempos. Jornais precisam circular sete dias por semana? Depende do mercado. Na grande maioria dos casos não precisa. Revistas devem ter conteúdos para todos? Salvo exceções, revistas são produtos de nicho. Quanto mais profundo mergulhar no nicho, menos interesse deverá dar a quem ficar de fora. Diminui-se o tamanho do alvo e cobra-se mais pela especialização.

Nenhuma dúvida que 2020 será o ano das grandes mudanças – aceleradas pelo coronavírus. Uma grande quantidade de empresas já quebraram ou quebrarão até dezembro por falta de visão do negócio. Os que conseguirem entender os novos ventos terão um futuro radiante. Para esses, o impresso seguirá sendo um bom negócio.

Fonte: Meio&Mensagem (Eduardo Tessler – Jornalista e Consultor)

domingo, 17 de maio de 2020

Circulação digital dos jornais cresce no trimestre

Folha, Estadão, O Globo e Valor Econômico registram crescimento na média de exemplares nos três primeiros meses de 2020


Os meses de janeiro, fevereiro e março de 2020 marcaram o crescimento da circulação digital dos maiores jornais do Brasil. De acordo com dados do Instituto Verificador de Comunicação (IVC), a média da circulação digital de Folha de S.Paulo, O Globo, O Estado de S.Paulo e Valor Econômico aumentou em relação ao primeiro trimestre de 2019.

Líder no ranking de exemplares digitais, a Folha saltou de uma média de 218.557 exemplares nos três primeiros meses do ano passado para 250.324 exemplares no início de 2020. Na segunda posição, O Globo viu sua circulação digital subir de 202.697 exemplares para uma média de 236.245 exemplares digitais.

O Estadão também cresceu, passando de uma circulação digital de 138.206, no ano passado, para 148.419. Especializado em economia e negócios, o Valor Econômico também registrou crescimento no período anual: foi de 61.111 exemplares para 81.103 exemplares.
Parte desses números pode ser explicada pela pandemia do novo coronavírus, que impulsionou a demanda por notícias e informações. Desde março, boa parte dos publishers começaram a divulgar um aumento na audiência de suas plataformas digitais, percepção corroborada pela Agência Nacional de Jornais (ANJ).


Fonte: Meio&Mensagem

NYT bate recorde de assinantes, mas prevê queda de publicidade

Jornal conquista 587 mil assinantes no primeiro trimestre do ano e afirma que publicidade deve cair 50% nos próximos meses


O New York Times conquistou 587 mil novas assinaturas digitais no primeiro trimestre do 2020. Esse foi o maior crescimento absoluto em toda a história do jornal estadunidense. Atualmente, a publicação conta com mais de cinco milhões de assinantes da versão digital.
Ao mesmo tempo, a companhia ultrapassou as estimativas do mercado e alcançou uma receita de US$ 443,6 milhões no primeiro trimestre, um crescimento de 1% em comparação ao mesmo período do ano anterior.
O faturamento com publicidade, entretanto, caiu 15,2% no período, totalizando US$ 106 milhões. Em ligação com investidores, executivos da companhia afirmaram que a queda de publicidade no segundo trimestre do ano deve alcançar 50% na comparação com o mesmo período do ano anterior.
Essa movimentação de queda acentuada reflete a apreensão dos departamentos de marketing em investimentos massivos durante a crise econômica causada pela pandemia. Por outro lado, reforça uma estratégia que o jornal vem pondo em prática há anos: fortalecimento da receita de assinantes e queda na de anunciantes.
Segundo reportagem da Reuters, executivos do jornal afirmaram, também, que o faturamento da versão digital do NYT será maior do que a do impresso ainda neste ano – algo também inédito para a publicação.
Fonte: Meio&Mensagem

quarta-feira, 13 de maio de 2020


Grandes jornais e grupos de mídia cortam salários e jornada durante pandemia

Diminuição vai de 25% a 33%
Folha foi último a fazer anúncio

 Empresas de mídia anunciaram cortes de salário e jornada por causa da pandemia de covid-19Sérgio Lima/Poder360 - 23.jan.2019
Funcionários da Folha de S.Paulo concordaram, na 3ª feira (12.mai.2020), com a redução de 25% do salário e da jornada de trabalho. A diminuição, que valerá por 3 meses a partir de junho, afeta repórteres, fotógrafos e editores em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília.
Em sua proposta, a Folha promete auxílio alimentação de R$ 150 por mês, além de reembolso de gastos extras com o trabalho remoto; estabilidade de emprego por até 1 ano –profissionais demitidos nesse período terão direito a indenização de 70% sobre os ordenados restantes; e manutenção do plano de saúde até 31 de dezembro, mesmo em caso de demissão. Procurado, o jornal afirmou que a redução não atinge funcionários do portal de internet UOL, que também integra o Grupo Folha.
Folha, jornal de maior influência no país e que completa 100 anos em 2021, foi a última grande publicação a anunciar esse tipo de acordo com seus profissionais. Outros grandes veículos da mídia jornalística já haviam adotados medidas de cortes de gastos por causa dos efeitos da pandemia de coronavírus.
A direção do jornal Correio Braziliense, que pertence ao Grupo Diários Associados, decidiu também na 3ª feira (12.mai) cortar 25% do salário de parte dos jornalistas, diagramadores, designers, fotógrafos e funcionários do setor administrativo. Segundo apurou o Poder360, as reduções não afetarão os contracheques dos repórteres que atuam diretamente nas coberturas de economia, política nacional e no jornalismo local.
Por causa da medida, os profissionais do Correio Braziliense fizeram uma assembleia virtual e decidiram paralisar as atividades: alegam que os salários de abril ainda não foram quitados integralmente e pedem melhores condições de trabalho. Os funcionários do jornal realizarão nova assembleia nesta 4ª feira (13.mai). A empresa não havia se manifestado publicamente sobre os cortes quando este texto foi concluído.
Pelo menos 15 outras empresas de jornalismo decidiram cortar salários e jornadas de trabalho durante a pandemia. Também houve casos de demissões. Leia infográfico preparado pelo Poder360 sobre assunto:

Na avaliação de presidente do SJSP (Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo), Paulo Zocchi, a hipótese de redução de salário num momento de crise pode impactar negativamente a qualidade do trabalho jornalístico. “Para cumprir a função essencial de informar a população neste momento de calamidade pública, os jornalistas não têm poupado esforços. Há profissionais colocando-se em situação de risco ampliado de contágio (risco para si mesmos e para as suas famílias), durante a cobertura da pandemia”, diz.
PREVISÃO LEGAL
MP 936, de 1º de abril, que institui o Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda, apresenta medidas trabalhistas alternativas durante a pandemia. O texto estabelece a redução de até 70% do salário dos funcionários, com redução paralela da jornada de trabalho, por até 3 meses. De acordo com a medida provisória, as reduções de salários podem ser de 25%, 50% ou 70%. Em alguns dos casos, a mudança pode ser feita por negociação individual, sem a participação do sindicato ao qual o empregado está vinculado.
Quando o corte for de 25%, a alteração pode ser realizada por acordo individual entre o patrão e o empregado, independente da faixa salarial. Já nas reduções de 50% e 70% ou suspensão de contrato, os acordos individuais só poderão ser firmados com empregados que ganham menos de R$ 3.135 ou mais de R$ 12.202,12. Os trabalhadores que recebem de R$ 3.136 a R$ 12.202,11 só poderão ter seus contratos modificados por acordo ou convenção coletiva, com a participação do sindicato.
COMO FUNCIONA A JORNADA MENOR
Os veículos de comunicação adotam modelos diferentes para adaptar a equipe a uma jornada de trabalho em média 25% menor.
Os jornalistas já obedecem a uma legislação específica e mais favorável a essa categoria na comparação com várias outras. A regra determina jornadas de apenas 5 horas diárias e no máximo duas horas extras para colaboradores de empresas jornalísticas. Ou seja, os profissionais de imprensa só podem, de acordo com a lei, trabalhar até 7 horas por dia, de 2ª feira a sábado –42 horas por semana.
Essas regras estão na CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), nos seus artigos 302 e 316, num capítulo específico chamado “Dos Jornalistas Profissionais”.
A maioria das empresas antes da pandemia de covid-19 adotava 1 sistema de trabalho de cerca de 8 horas por dia,  mas apenas de 2ª a 6ª feira e com folgas nos fins de semana. As equipes de jornalistas que trabalhavam em plantões aos sábados e domingos ganhavam folgas para serem gozadas ao longo da semana subsequente ou aumentavam seus saldos em bancos de horas –e essas horas eram usadas em datas posteriores acertadas com as direções dos veículos.
Segundo apurou o Poder360, a adaptação da redução de salários e de jornadas de trabalho tem variado entre os jornais.
Alguns veículos têm simplesmente reduzido a jornada de seus jornalistas para 4 dias por semana. Por exemplo, o profissional trabalha de 2ª a 5ª feira e folga na 6ª feira, sábado e domingo.
Outros têm preferido manter o sistema como está atualmente e concedem folgas emendadas de 6 a 7 dias por mês para os jornalistas que tiveram o corte de 25% no salário e na jornada.
Em geral, esses acordos têm sido realizados com o acompanhamento de sindicatos locais. Sem a adoção dessas medidas, vários jornais teriam de ter cortado postos de trabalho em suas Redações.
O jornal digital Poder360 não adotou até o momento nenhum tipo de medida para reduzir salários de seus profissionais.
CNN É ACUSADA DE IRREGULARIDADES
CNN Brasil, que estreou no país em março, é alvo de acusações sobre possíveis irregularidades na contratação de repórteres cinematográficos. Além disso, o canal de notícias estaria ignorando as normas sobre escalas de plantões –que estipulam 1 dia de folga a cada 6 trabalhados– e o pagamento de horas extras.
O chefe de Redação da emissora em Brasília, Roberto Munhoz, declarou que a empresa pretendia seguir 1 esquema em que para cada 12 dias trabalhados seriam concedidos 2 dias de folga, conforme a regra legal que é adotada em São Paulo para a categoria dos jornalistas.
Segundo o Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal, o regime é ilegal em Brasília. “O SJPDF compreende essa jornada como ilegal, uma vez que contraria o artigo 307 da CLT que garante 1 dia de folga a cada 6 trabalhados a todos os jornalistas”, disse em nota.
 Esta reportagem foi produzida pelo estagiário Weudson Ribeiro sob supervisão do secretário de Redação Douglas Pereira.
Fonte: Poder 360
WEUDSON RIBEIRO
13.maio.2020 (quarta-feira)